VISITA AO CENTRO DE REFERÊNCIA EM SEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRICIONAL (CRSAN)

 


Para a Semana da Solidariedade, tínhamos agendada uma visita ao Centro de Referência em Segurança Alimentar e Nutricional (CRSAN), voltada aos alunos de 8ª Série, para que pudessem conhecer um exemplo da organização da sociedade civil na prática do trabalho voluntário, exposto na criação de ONGs e em suas iniciativas para a intervenção no contexto social. Nosso objetivo era que os alunos conhecessem a enorme gama de possibilidades para agir socialmente em favor da cidadania, não apenas arrecadando produtos, mas conhecendo as alternativas que partem da organização das pessoas e de suas idéias.

O CRSAN é um projeto desenvolvido pelo Instituto Pólis (www.polis.org.br) para fomentar a educação alimentar e a criação de iniciativas que se destinem, do mesmo modo, para a orientação nutricional, assim reduzindo os altos índices referentes à desnutrição, anemia e tantos outros problemas ligados à alimentação. Com sede no bairro Jardim Jacqueline, zona oeste de SP, o CRSAN se destina à intervenção educacional na comunidade, marcada pelas dificuldades de tantas favelas da cidade: falta de saneamento, desemprego, crianças na rua, alcoolismo e tráfico de drogas.

O projeto busca atingir a comunidade através de cursos de segurança alimentar, que basicamente informam quanto à necessidade de uma alimentação regular e equilibrada a partir, entre outros recursos, do uso dos talos e cascas dos alimentos e da formação de uma nova dieta mais rica e diversificada. A iniciativa dos cursos vem acoplada à idéia de organizar a comunidade a partir da interação social, do conhecimento de recursos disponíveis junto às sub-prefeituras e da mobilização para a criação de projetos culturais.

Todos estes objetivos foram muito bem expostos aos alunos pela representante deste projeto, Mariana Romão, que tão bem nos recebeu na manhã de sexta-feira (29 de setembro) para uma série de atividades. Após uma explanação geral sobre o projeto, em que não faltaram dados referentes ao contexto social e econômico de nosso país, e sobre a formação de ONGs como organização da sociedade civil, Mariana destacou a importância dos hábitos alimentares para a saúde e para a transformação geral de nosso mundo, a partir da conscientização necessária quanto aos hábitos de consumo e de seus resultados para o meio ambiente.

Partimos para uma rápida apresentação dos alunos, que deveriam escolher um alimento e explicar o motivo de suas escolhas. Desta apresentação, Mariana destacou algumas colocações interessantes, como a de que o homem é o único animal que se alimenta de substâncias que não contribuem para sua saúde e o uso e abuso da indústria junto à alimentação. Retomamos então: por que consumimos o que nos faz mal?

Daí foi-nos apresentado o contexto atual referente ao projeto com a aprovação, pelo atual governo, da Lei de Segurança Alimentar (LOSAN), a partir da grande discussão sobre alimentação, gerada, entre outros fatores, com o projeto Fome Zero.

Foi-nos apresentado também o contexto geral da comunidade de moradores do bairro Jacqueline: o improviso de meios de subsistência, a falta de visão de futuro que marca a geração jovem, o imediatismo nas atitudes para suprir a fome. Mariana cuidou de apresentar o panorama da comunidade com muita tranqüilidade, ressaltando tanto estes aspectos de carência e dificuldade, como também a identidade da comunidade – vizinhos mais próximos, dificuldades compartilhadas, humildade, simplicidade. Como tão bem foi colocado, deveríamos buscar conhecer esta comunidade a partir do ponto de vista da troca de experiências, ou seja, considerando que as diferenças sempre nos ajudam a conhecer e a aprender com o outro. Isto, sem dúvida, foi um dos pontos mais importantes e notáveis para a discussão que nos propomos levantar.

Em seguida, partimos para uma rápida volta pelo CRSAN, para conhecer sua história e suas instalações. Trata-se de um galpão, anteriormente usado pela prefeitura para servir aos garis responsáveis pela limpeza da região. Abandonado, o galpão foi cedido a este projeto do Instituto Pólis, assim unindo a participação da iniciativa civil à organização da comunidade, a partir de sua Associação de Moradores. Conhecemos a horta, ainda muito pequena, a cozinha e os trabalhos produzidos pelos moradores nos cursos e expostos pelas paredes do salão de reuniões.

As paredes deste salão principal contam muito sobre o projeto e sobre a formação de um grupo comunitário. Há cartazes sobre projetos do governo e sobre o próprio projeto, cartazes com as normas de boa convivência, cartazes com o mapa da região (“o que temos e o que nos falta”) e cartas com as opiniões, sonhos e metas do grupo. Há um cartaz em especial que define o que o grupo pensa sobre educação – expondo o ponto de vista da troca e do respeito às diferenças.

Em seguida, partimos para uma visita pela comunidade para conhecer a realidade de uma favela e ouvir as pessoas envolvidas no projeto.

Todo este passeio foi muito bem conduzido pela Mariana, que sempre chamava a atenção de nosso grupo para as características mais alarmantes até os detalhes cotidianos que marcam um processo de favelização. Assim: o esgoto a céu aberto, áreas invadidas sem aprovação da prefeitura, os chamados “gatos”, as vendinhas e serviços disponíveis, o entroncamento de casas, paredes, muros, tudo mesclado e sobreposto em um mesmo contexto de pobreza e dificuldade. Os alunos se interessaram muito em conhecer a fundo a favela, dispondo-se mesmo a entrar em um dos becos para ver exatamente como se constroem as casas.

Assim chegamos à Associação de Moradores, onde conhecemos a Cida, responsável pela direção do local, orientando, juntamente a outras líderes comunitárias, a organização do Sopão e do café da manhã comunitários, com geração de renda que parte da reciclagem de materiais. A Cida nos contou muito a respeito da realidade dos jovens e das crianças, destacando alguns dados sobre a favela, marcada pelo desemprego, pela falta de educação e pelo restrito posicionamento de seus moradores quanto à organização comunitária.

Conhecemos também a Alessandra, filha da Cida e secretária da Associação de Moradores, que criou uma cooperativa para a venda do “lanche ecológico”, depois de ter feito o curso de segurança alimentar. O lanche ecológico parte do aproveitamento das cascas e talos dos alimentos para compor patês, bolos e tortas com maior riqueza nutricional.

Após abrirmos espaço para perguntas, os alunos tomaram seu lanche e assim voltamos ao CRSAN.

Encerrando nossa visita, aproveitei para relacionar os assuntos tratados e tão bem vivenciados às temáticas das aulas de história e ética, recuperando a necessidade de conhecermos nossa realidade para melhor agirmos em sociedade. Expus aos alunos a necessidade de agirmos com consciência, independente de buscarmos ou não o voluntariado, mas percebendo que ações justas e corretas já auxiliam o bem estar social. Partir para uma campanha de arrecadação ou para a criação de uma ong é um passo a mais depois da clareza em conhecer os próprios objetivos e metas como indivíduo e cidadão. Ou seja, é preciso estar em paz com sua consciência e com sua identidade, para reconhecer quais ações deverão marcar sua trajetória – o que está ligado ao projeto de vida de cada um.

Agradecemos à participação da Mariana em nos receber e em nos apresentar o projeto e a comunidade, com aplausos e incentivos. Os alunos se mostraram muito satisfeitos com a visita e já demonstraram o desejo em ajudar a comunidade.

Nossa visita ao CRSAN foi realmente muito positiva e gerou bons resultados a se desenrolarem em novas atividades.

Espero retomar as discussões em aulas e em atividades abertas aos interessados – alunos e professores – assim aprofundando nossa discussão, recuperando nossas vivências, compartilhando nossos sentimentos e emoções.

Resta agradecer à equipe que nos auxiliou em nossa visita e relevar mais uma vez a iniciativa desta escola na articulação da Semana da Solidariedade.

 

Juliano Lima

Professor de História e Ética

 


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